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Few days on land

Um retrato do dia-a-dia de uma jovem de viagens quase sempre musicais e nem sempre coloridas.

Estas palavras que me prendem #8

Cidade

 

Existes perseguindo o desconhecido e a surpresa é o insólito dos encontros momentâneos.

O barulho real é perpetuado no vazio quando o que se procura é calma. O movimento ganha devoção através de desgostos desafinados que transparecem no chão molhado.

É tempo de questionar o paradeiro da vida e quem ficou de vigiá-la, mas o certo é que não há respostas nos céus nublados. Talvez amanhã brilhe o sol.

 

                                                                                        Joana Pires

Estas palavras que me prendem #7

Desconfio

É falso.

Nada é o que parece

Quando tudo nos parece algo.

As lamentações prosseguem,

De que valerá a prece?

 

A confiança está presa por fios de cetim

E, pela noite, a confusão instalou-se.

Enfim, o que se previa,

O renascer da única certeza: o fim.

 

É falso.

O limite ultrapassado é a prova.

A incerteza guia-nos pela vida

Quando todos os caminhos se tornam escolhas.

As nossas dão-nos alma,

Conseguiremos aceitar as dos outros?

 

Quando percebemos que recordar mata lentamente

As lágrimas caem-nos pelo rosto.

Ninguém fica indiferente às lembranças

Mesmo que para o mundo fique transparente.

 

É falso.

Tornou-se complicado defender a sociedade

Da conspiração que a atinge.

A luz mostra-nos o reflexo da verdade

Através do espelho que a define.

 

No turbilhão de ideias que surge

Descobrir a melhor mentira é um desafio.

Se é falso não sei,

Mas desconfio.

                                          Joana Pires

A tragédia nascida de um grande amor

Cruel. Sem misericórdia. Difícil de assistir sem ficar emocionada. Diria que George R.R. Martin tem uma clara (e incómoda) preferência pelos vilões das suas histórias. Só esse facto explica o nono episódio da terceira temporada da série «A Guerra dos Tronos».

As pessoas que seguem a história da série depois de terem lido os livros esperavam este desfecho de temporada. Todos os outros fãs simplesmente não esperavam. Eu não esperava. É verdade que, pelo que tenho visto da série, os livros devem ser extremamente interessantes (e melhores) mas, por mais que quisesse ler toda a colecção num futuro próximo, parece que ainda vou ter de esperar bastante para isso. É preciso mais do que tempo... Para seguir esta história é preciso ter coragem.

Rejubilei com o início do episódio quando Catelyn Stark, a mãe, pediu ao Robb, o seu filho mais velho: "Mostra-lhes como é perder o que amam". A família Stark está a perder desde a primeira temporada. Para além da morte de Nedd Stark, o pai, e a destruição da "casa" Stark, os restantes elementos da família estão afastados uns dos outros. 

Pensei: "É desta que os traidores, os ambiciosos, aqueles que vivem para o dinheiro e lutam por cada pedaço de poder que puderem alcançar, vão ter o que merecem". 

Enganei-me.

Robb e a sua mulher, grávida, Talyssa, juntamente com Catelyn, foram ao casamento de Edmure Tully, o tio, que teria um autêntico banquete sanguinário como festa.

Durante o jantar, Robb esteve sempre muito sorridente, algo que não havia sido comum na personagem até então. Assim, era possível prever que a felicidade não duraria muito tempo. Entretanto, os fãs tiveram direito a uma cena emotiva que foi, ao mesmo tempo, uma despedida: Talyssa confessou a Robb que queria dar o nome do seu pai, Nedd, ao filho que o casal esperava, caso este fosse menino. Não chegaram a saber eles e certamente não chegam a saber os espectadores.

A forma como Catelyn se apercebe do que está para acontecer, reparando nos pormenores que a rodeavam foi muito bem pensada pelo autor da história e, em cena, a actuação da actriz Michelle Fairley é sublime. As portas são fechadas e soa a melodia de "The Rains of Castamere" (música da Casa Lannister), que em episódios anteriores foi apresentada como a música que havia tocado durante a execução de outra família.

 
A cena que se vê logo depois desta acaba com todas as expectativas de que alguém se salve. Os soldados matam o descendente de Robb ainda antes de matarem Talyssa e depois voam setas em todas as direcções. Se não me engano, voaram três em direcção ao Robb. É impossível ver esta cena sem estar minimamente chocado e emocionado. Impossível.
Robb ainda conseguiu levantar-se, ir à beira de Talyssa e perceber que nem ela, nem o filho se iriam salvar. Depois chamou pela mãe, que estava prestes a matar a mulher do homem que planeou este "banquete". Aquele "Mother" trazia tanto amor... Não fosse Roose Bolton escolher esse momento para assassinar Robb e Catelyn continuaria viva, a olhar para o seu filho mais velho para sempre.
Foi o golpe final para Catelyn. O filho do responsável pela tragédia, que já tinha matado Talyssa, matou Catelyn rasgando-lhe a garganta. Mas ela não precisava desse golpe. Catelyn já estava morta. E... I really don't see that coming! Por esta, eu não esperava. 
Toda a cena foi muito demorada. Eu diria que foi demorada demais. Principalmente para quem admira a família Stark. Os créditos não tiveram direito a música, não havia ninguém que suportasse música depois deste episódio. Apenas o silêncio.

Uma das expressões mais utilizadas ao longo da série é "Valar Morghulis" que, segundo soubemos nesta temporada quer dizer "All men must die" ou, em português, "Todo o homem deve morrer". É uma expressão crucial, principalmente depois de um episódio como este. A personagem que mais tem gerado controvérsia a quem assiste «A Guerra dos Tronos» é Joffrey Baratheon pela sua loucura exacerbada e pelos seus "requintes de malvadez". Mas um episódio pode mudar tudo. E mudou.

Ainda hoje é difícil dizer/escrever o nome das famílias responsáveis pela morte de um dos meus personagens favoritos. O Rei do Norte.   

Tornou-se claro que por mais tempo que passe e mesmo que acontecimentos futuros sejam piores, nenhum fã de «A Guerra dos Tronos» irá esquecer este episódio. Não é um exagero. O episódio foi trágico. Épico.

Um aniversário poético

Portugal celebra hoje os 125 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Para mim, Pessoa foi o poeta da verdade da vida. É com profunda alegria que percebo que a sua obra se tornou património, não só para Portugal enquanto país mas também para a grande maioria dos portugueses. Caro Fernando Pessoa, estamos gratos pelo seu enorme talento!

O Quinto Império

"Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

 

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz -
Ter por vida a sepultura.

 

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

 

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

 

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa - os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?"

 

                                            Fernando Pessoa
Texto retirado da terceira parte da obra «Mensagem» - O Encoberto (I. Os Símbolos).

Muda o tempo, mudam as pessoas?

Comecei por querer perceber se o que muda é o tempo ou se são as pessoas. Ainda não descobri e penso não ter chegado nem perto disso. Talvez seja hoje, através desta reflexão, talvez não.

É verdade que são os ponteiros do relógio que se movimentam no tempo que avança. São os anos que passam por nós e escolhem passar não a trote ou a galope, mas no ritmo certo. Entre os anos que passam e os que vão passar nunca ficamos impunes, antes somos punidos por essa passagem. Não é algo negativo, é a vida. A vida que segue como a água segue pelo rio e que, mesmo quando encontra pedras, arranja uma forma de passar por elas. Assim somos nós, enquanto humanos, enquanto vivemos. Perdemos o tempo mas ganhamos o hábito e a experiência de lidar com isso. 

O tempo é das poucas coisas que não podemos mudar. Não há forma de viver o futuro em vez do presente e só as nossas memórias nos levam ao passado. Certo é que não podemos viver determinada situação de novo para a tornar diferente. O que está vivido está.

(fotografia "As voltas da vida" de Gil Reis)
 

São as memórias e os sonhos que nos fazem balançar na "corda bamba" da vida. Sentimos saudade dos bons momentos pela alegria que deixaram em nós e tentamos esquecer os maus momentos, embora esses nos tragam a sabedoria. Mas será que toda a experiência e sabedoria, todos os momentos que vivemos mudam as pessoas, a sua forma de ser e reagir com os outros mas também consigo mesmas? Seremos moldados pela vida, por nós próprios ou pelos outros?  

Somos quem somos porque sentimos, ou não, e isso define-nos, identifica-nos, pode diferenciar-nos. Mas mantemos a nossa personalidade ao longo da vida?

Num primeiro momento de reflexão, a minha resposta é sim, mudamos. A vida ou, muitas vezes, os outros ensinam-nos que devemos mudar, que não estamos a ser nós (ou a pessoa que querem que sejamos) em determinado momento ou que só seremos pessoas melhores se mudarmos certos aspectos da nossa personalidade. 

Mas, se pensarmos bem, talvez possamos compreender que a nossa personalidade, quem somos realmente, não pode mudar, ou não deve para que sejamos fiéis a nós próprios. Daí quando ouço alguém dizer "Tu mudaste. Já não és a mesma pessoa" (e este diálogo ouve-se muitas vezes), penso: "Essa pessoa sempre foi assim, tu é que só agora a estás a conhecer tal e qual como ela é, sempre foi e sempre será".

 

Alguma opinião sobre o assunto desse lado? Comentem :)