Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Few days on land

Um retrato do dia-a-dia de uma jovem de viagens quase sempre musicais e nem sempre coloridas.

Nome de Código: Cigarettes After Sex

21077638_1519300488108804_4240007911964103413_n.jp

 

Greg Gonzalez, Phillip Tubbs, Randy Miller e Jacob Tomsky são, desde 2008, os Cigarettes After Sex. O percurso dos americanos, radicados em Brooklyn, foi suave, como os sussurros das suas melodias, e intenso, como o conteúdo das suas letras. A responsabilidade é de Greg Gonzalez em 90% do tempo, sendo ele o responsável pela escrita do romance, começado ou acabado, o do início, do meio e do fim, o amor sentido e tantas vezes sofrido e que através de palavras é refletido em cada verso e em cada refrão das suas canções.

 

Não é à toa que despertam sentimentos verdadeiros e contraditórios, fictícios ou assertivos em quem os ouve. A reação é de perplexidade, pois são impressionantes os cenários onde nos levam nas nossas memórias ou que nos fazem imaginar. Podemos ver essa reação nos concertos em que se reconhece uma plateia absorvida pelo tanto que está a sentir, claramente pouco preparada para o ambiente invulgarmente intímo que encontrou (qualquer tipo de preparação, inclusive workshops ou cursos, seriam pouco eficazes no momento da confrontação com esta banda ao vivo). Podemos ler essa reação nos comentários destacados dos vídeos publicados no Youtube, como é o caso da faixa "Keep On Loving You", canção escrita por Kevin Cronin e conhecida em 2015 no EP Affection, onde as pessoas confessam-se nostálgicas por um amor que ainda não viveram e outras declaram chorar por um término pelo qual nunca passaram. É isto o dream pop dos Cigarettes After Sex. É este um dos lados mais profundos da música e da sua ligação às nossas vidas, quer sejam elas vividas ou sonhadas.

 

 

Os discos não são muitos. Na verdade, 16 músicas resumem-se em dois EPs - I., lançado em 2012, e Affection, de 2015 - e um disco de estúdio, Cigarettes After Sex, lançado em junho deste ano. Mas, tal como frisei no início, esta banda foi capaz de fazer pouco mas muito bom, o que é caso raro, não único, mas sim bastante particular dos Cigarettes After Sex. Souberam criar uma bolha musical onde vão mostrando as suas composições, num ambiente próprio e com a intimidade de quem sabe como emocionar pela verdade, criando uma ligação com a audiência. Essa verdade que nos fala ao ouvido, que nos canta ao coração e que tem a capacidade de desarmar e de deixar a nú as qualidades e as fragilidades de todos nós.  

 

 

Em 2017, ano em que lançaram o primeiro disco de estúdio, estiveram várias vezes em Portugal: em junho no NOS Primavera Sound e em novembro no Hard Club (Porto) e no Vodafone Mexefest (Lisboa). No ano anterior tinham estado no Vodafone Paredes de Coura. São, portanto, não só bem conhecidos dos portugueses como bastante acarinhados por cá. E isto fez-se com cerca de 20 músicas conhecidas , o que, só por si, é indicativo da excelência dos Cigarettes After Sex. E da melancolia que lhes sentimos. 

 

 

REDES SOCIAIS_Cigarettes After Sex
Site Oficial
Facebook
Twitter

Instagram
Youtube


12019898_966877110017814_1536714082541174471_n.jpg

Todas as fotografias deste post foram retiradas do Facebook dos Cigarettes After Sex.

Álbuns de 2017: Afterglow, de Ásgeir

O mundo conhece-o pelos hits do seu disco de estreia, In The Silence (2014): "King and Cross", "Going Home" e "On That Day" foram verdadeiros sucessos nas plataformas digitais na Europa e na Austrália. Mas Ásgeir tem provado ser capaz de reinventar-se. E Afterglow é a confirmação daquilo que afirmei em 2014 quando falei dele aqui no Few days on land: os falsetes são a sua implacável arma e enquanto continuar a fazer uso dela, ninguém o vai conseguir derrubar. O misto de pop e folk com intermitências de electrónica e um aqui e ali de sotaque islandês combinam perfeitamente com a sensibilidade, a fragilidade e a verdade das letras. Acho que é mais um disco bem conseguido, dentro do estilo em que o artista já se afirmou e que me agrada. Considero que este é um dos melhores álbuns de 2017.

 

"Afterglow", faixa que dá nome ao disco, abre as hostilidades e confirma-se: assim que ouvimos a voz de Ásgeir, ouvimos falsetes. O refrão é todo ele num tom extremamente agudo, bastante improvável de alcançar pela maioria dos comuns mortais. Impressiona é perceber que ele canta assim ao vivo. Portanto, presumo que tenha seguido os meus conselhos, claro só que não.

1200x630bb.jpg

 

As músicas seguintes, "Unbound" e "Stardust", foram o primeiro e segundo singles apresentados, respetivamente. Depois de escutado o álbum, temos a certeza que neste patamar musical Ásgeir não corre riscos. Manteve a fórmula que o levou a figurar nos tops musicais de vários países europeus, embora me pareça que este disco não foi tão bem recebido como o anterior. Eu gostei. É um daqueles álbuns que quando ouço, tenho de ouvir de fio a pavio. É um disco que acalma, que faz pensar na vida. As letras fazem sentido e podemos facilmente identificar-nos com as histórias que nos são cantadas. 

 

As letras têm algo de complexo: expressam sentimentos através dos elementos - fogo, ar, terra e água. Nota-se em "afterglow, magic show/ shine across the earth tonight,/ shimmering over the ocean" e nas expressões "land, wonderland" e "river of light" que vai utilizando ao longo da primeira canção do disco. Fica evidente a sua ligação a algo mais espiritual quando fala em luz e relacionando-a o mar: "me, I’m a watercolour washing off/ into the deepest sea./ Though my soul may set in darkness,/ it will rise in light" ("Stardust"). O mar, as ondas, os céus e a neve servem para contar histórias. Tudo isto fica mais evidente em "Here Comes The Wave In". Ásgeir refere-se a "skies of grey", a "fresh air", e o refrão começa com "here comes the wave in/ let the water even everything". "Birds that sing", "morning light", "through the storm I travel in the night" ou "the wind that blows" são outras expressões e frases utilizadas nesta música. Acontece o mesmo nas músicas "Nothing", "I Know You Know" (onde fala do oceano e dos rios mais 30 vezes) e em "Dreaming" (quando fala nos "fields of green").

 

O factor sorte tem influência neste processo e não é pouca. A visão do artista é descrita por "luck will find me somehow" e "and then why do I worry/ odds are with me/ I am upon my journey/ untied I will be" ("Unbound"). Surge depois em "I Know You Know" uma quebra de confiança nesse sentimento com "why can't you see me/ feeling my luck wear thin".

Ásgeir não termina Afterglow sem depositar toda a esperança no amor, aquele de todas as formas e que tudo cura: "love so pure and ever true/ mends your heart and leads you through" ("Dreaming").

 

Uma das faixas mais cativantes do disco é "Underneath It", onde as guitarras fazem um solo bastante melódico e aparecem depois harmonias em perfeita comunhão:

 

 

"I Know You Know" é possivelmente a cançãos mais up beat do disco, é dançável e ao mesmo tempo serena no tom e na melodia. Com falsetes e mais falsetes, seduz pelo ritmo mas a letra também é muito bonita.

 

 

Faltava o apelo ao romantismo e à melancolia? Não falta mais. Podíamos falar da calma e reflexiva "Fennir Yfir" mas na minha opinião é na "Dreaming"  que se concentra o jovem mais sonhador do mundo. E se dúvidas houvesse, a música termina com "I follow every line that leads to you". Fica claro.

 

 

O disco está disponível nas plataformas digitais e foi disponibilizado por completo no Youtube pelo que não precisam de gastar dinheiro para ouvi-lo. Eu comprei a versão deluxe porque era um disco que queria guardar (havia na FNAC portanto não é um artista desconhecido para os portugueses).

 

 

Conhecem o artista? E este álbum? quais as vossas considerações quanto ao que leram e ouviram? Espero pelo vosso feedback!

 

As três vozes mais surpreendentes dos últimos tempos

Nunca deixo de ouvir música. É a minha forma de ganhar energia para o dia-a-dia. A música que tenho ouvido nos últimos meses apresentou-me a três vozes que me surpreenderam. Os músicos Tor Miller, Alex Cameron e Oscar têm vozes diferentes do que é comum ouvirmos, no geral. No particular, destaco o alcance vocal, a calma/tranquilidade a contrastar com a jovialidade dos artistas em alguns aspectos, a vibe dos 80's que me apaixona mais e mais a cada ano que passa, as letras "fora da caixa" vs. "as certinhas", a descontração/inovação nos vídeos, e os movimentos de dança e estilos peculiares que os tornam artistas raros. Estas são características que se adequam aos três que estão a dar cartas valiosas no mundo da música.  

 

Tor Miller

Directamente de Brooklyn, Nova Iorque, para o Few days on land, chega Tor Miller. Aprendeu a tocar piano em criança e a cantar enquanto ouvia Frank Sinatra e Ray Charles com o pai. Aos 18 anos teve uma banda de pop-punk mas não demorou muito a render-se ao indie pop, a solo. Agora, com 22 anos, acaba de lançar o seu primeiro álbum, American English, depois de no ano passado ter editado o EP Headlights. A voz é única e o disco parece-me um excelente começo de carreira para o músico. Ouçam:

 

 

Se tiverem dúvidas quanto à capacidade vocal deste jovem, podem esquecer o assunto assim que ouvirem a música seguinte, "Baby Blue", que está na lista para vocês terem uma pequena noção do quão bem ele canta ao vivo:

 

 

E para a dança? Tem jeito? Não se preocupem, o jovem músico também se adequa! Nesta versão de "Carter & Cash" é possível ver alguns dos moves muito peculiares de Tor Miller:

 

 

 

Alex Cameron

De Sidney (Austrália) aparece Alex Cameron que o jornal britânico The Guardian descreve como "your new favourite loser". Segundo o próprio músico explica na apresentação do seu projeto musical no qual colabora com Roy Molloy, as canções descrevem a sua experiência no mundo do show business, as pessoas e as histórias que ele conheceu e ouviu. Tal como explicado pelo The Guardian para atribuir-lhe aquela descrição, o foco do projeto está na falha como um mal necessário à evolução: "We're reclaiming failure as an act of progress. An act of learning. Something to celebrate", disse Alex Cameron. Tudo isto através do synthpop.

 

Em 2013, lançou Jumping the Shark, o primeiro registo discográfico que esteve disponível para download no seu website até que a edição física do disco saiu à rua, há cerca de dois meses. Podem encontrá-lo também através da abreviatura do seu nome, ALKCM, difundida pelo próprio, embora agora utilize o nome todo na maioria das vezes. Estrelas, vá-se lá perceber!  

 

 

 

 

Oscar

Para completar os grandes centros musicais da actualidade temos o Scheller, Oscar Scheller, de Londres. É dos três o que tem o registo mais descontraído, principalmente nos vídeos. Assume-se perante o seu público apenas como Oscar e tem razão porque depois de conhecer as músicas é fácil associar a voz e o estilo ao músico que está em tour pela Europa as we speak, se é que me entendem. Resumindo: é um moço divertido, querido e alternativo que também está dedicado ao indie pop. O disco de estreia, Cut and Paste, saiu em Maio deste ano. 

 

 

 

 

Gostaram de algum destes artistas? Há por aí sugestões de grades vozes a emergir no mundo da música para ouvir? 

Bom fim-de-semana para todos! 

Álbuns de 2016: Moth, de Chairlift

Os Chairlift, duo americano formado em 2005 por Caroline Polachek e Patrick Wimberly, regressam aos registos discográficos com Moth, disco do qual já conhecíamos as faixas "Ch-Ching" e "Romeo". Editado pela Columbia Records, Moth saiu a 16 de Janeiro. Três anos após o lançamento de Something, álbum de Janeiro de 2012, Caroline e Patrick voltaram em força e prometem ficar porque trouxeram músicas capazes de alcançar o rótulo de the next big thing e trazê-los a Portugal novamente, muito em breve (de relembrar que eles marcaram presença na edição de 2015 do Vodafone Mexfest).

 

O alcance vocal de Caroline Polachek é impressionante e a variação vocal que ela imprime nas canções é talvez a característica mais vincada da banda. Muitos reconhecem-nos porque sabem que assistir a um concerto deste duo é praticamente o mesmo que ouvir o CD, apenas no que respeita à qualidade dos agudos de Polachek, como é óbvio. A energia nem se compara! Caroline tem uma voz imensa, que impressiona, mas que só brilha se Patrick Wimberly fizer o seu trabalho dando groove instrumental à coisa. Aliás, Wimberly tem menos intervenções vocais em Moth do que nos discos anteriores, certamente para se concentrar nos múltiplos sons que os Chairlift revivem faixa a faixa. Vi-os no Primavera Sound de 2012 e adorei. Já era fã mas ainda fiquei mais. 

 

 

       

ChairliftSingle.jpg

Desde Does You Inspire You, primeiro álbum da banda, que o synth-pop é a praia certa para os Chairlift e, por isso, esperava-se que este álbum estivesse dentro do estilo. E está. Analisando as canções, "Romeo" e "Ch-Ching" foram os primeiros singles conhecidos porque são também as faixas com melodias mais semelhantes aos grandes êxitos da banda como "Amanaemonesia" ou "I Belong in Your Arms", faixas incluídas em SomethingMoth tem 10 canções originais, sendo as minhas favoritas "Look Up", "Polymorphing", "Crying In Public", "Ch-Ching" e "Moth to the Flame".  


Li algures que se nota perfeitamente como o som dos álbuns tem evoluído e está hoje muito mais "limpo" do que o som do álbum que os lançou, em 2008. Concordo plenamente, embora Does You Inspire You seja um dos meus álbuns favoritos de sempre, com músicas como "Planet Health", ou "Earwig Town", sem esquecer, naturalmente, "Bruises" - que deve ser uma das músicas que mais cantei na vida, ainda hoje sei cada palavra da letra - e "Somewhere Around Here", uma das melodias mais bonitas que já ouvi.

 
"Moth to the Flame" impressiona por ser extremamente pop, digno de se transformar num hit brevemente. É super dançável, animada, e tem Polachek a mostrar a amplitude de que falava no início, parte da sua identidade. "Show U Off", a canção que se lhe segue, herda vários aspectos da anterior: batida marcada, é up beat, melodia dançável, ainda que menos identificável com as criações de Chairlift.

 

Um dos pontos também caracerísticos desta banda e que gosto de ver que não esqueceram em Moth, é o facto de incluirem sons menos usuais neste estilo nas suas músicas e combinarem-nos com sons electrónicos, as guitarras e as vozes de uma forma diferente das outras bandas. Com os Chairlift parece que essa junção corre sempre bem. É difícil apontar-lhes defeitos. Em "Ottawa to Osaka", por exemplo, ouvimos violinos misturados com sons orientais e electrónica. E não podemos dizer que não funciona. Escolho "No Such Thing as Illusion" (boa letra!), "Unfinished Business" e "Show U Off" como as menos favoritas do álbum.

 

Ouvir Chailift soa sempre a uma viagem. Acontecem várias coisas, todas elas diferentes, conseguimos passar por diversos estados de espírito, e imaginar paisagens bastante díspares. Não diria que Moth é mais do mesmo, mas também não é um flop. Mudaram pequenas coisas e, neste caso, isso correu bem.

 

Recomendo!